blablabla

"um dia a massa ainda comerá do meu fino biscoito" - f. pessoa

3.2.09

over and over and over and over again

E é óbvio que últimas quimeras morram discretamente. Não se supõe que elas existam. Ou até que tenham existido conforme as imaginamos.

3.9.08

donjuanismo

Collectio: coletar + falar. Coleção é algo auto-explicável, justifica-se pelo interesse objetivo no assunto, com o respaldo do prazer da posse. Eu tenho, é meu, gosto disso, está sob meus cuidados. Acredito que o grande prazer do colecionador é ouvir o elogio dos outros. Quando o prazer solitário desperta interesse e fascinação ganhando assim um sentido a mais: gosta-se da pessoa também pelos gostos dela. O oposto disso explica as coleções secretas, que só se revelam quando pontos-chave da personalidade do outro foram identificados tornando segura a exposição.

Quem coleciona e gosta de ser reconhecido por isso faz questão de se diferenciar dos que apenas acumulam sem critério. Um organiza, o outro concentra bagunça, ambos acumulam, separados pela mesma tênue linha entre loucos e excêntricos.

Acho curiosas as coleções que parecem um museu, onde as peças podem apenas ser observadas, mesmo pelos seus donos. Como se fosse na verdade uma coleção de memórias, ativadas pela contemplação. Eu estranho mas entendo, pois se precisamos de templo para entrarmos em contato com o divino... natural que para evocar memórias precisemos de relíquias.

Daí eu penso que algumas pessoas se sintam mais seguras com souvenirs que com as viagens em si. Como pseudo-caçadores que nunca fizeram um safari mas penduram chifres e cabeças na parede. E lembram do que gostariam de ter sido, sem nunca ter vivido realmente aquilo.

14.8.08

true happiness

Uma amiga ostenta por meses e meses no msn dela:
Felicidade só é real quando compartilhada.

Nunca vou perguntar o porquê, acho uma frase perturbadora. Porque numa cajadada só questiona a felicidade e desmerece o indivíduo. Como se a autenticação da felicidade fosse expedida no contato com o outro, então não haveriam prazeres solitários de nenhuma espécie. Ou seriam reles prazeres, incapazes de alcançar o status de alegria, felicidade. Entendo que como mãe e esposa ela se veja muito mais coletiva do que singular, mas... a felicidade tem que estar em nós. Se quisermos tocá-la, ela tem que estar em nós. Se o gozo está em buscá-la, aí pode estar em qualquer lugar. Esperança, de Vicente de Carvalho:

Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa que sonhamos,
toda arriada de dourados pomos

existe sim; mas nós não a encontramos.
Porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.


Ou seja... melhor não ser acreditar que felicidade é o ouro olímpico. A menos que você seja atleta e que tenha se preparado com rigor por alguns bons anos, cumpra as provas, vença as competições, e mantenha mente e corpo firmes no objetivo da vitória. E claro, que seu oponente não seja invencível.

Felicidade só é real... quando se realiza.

11.8.08

Água mole

Semana passada ou retrasada um diplomata brasileiro cometeu a gafe de citar Goebbels para uma descendente de judeus. Infeliz coincidência, apesar de em tempos politicamente corretos ser sempre um risco falar de qualquer coisa nazi. Mas não fosse a ascendência da moça, seria a coisa mais contundente a se falar para um representante do poder.

A frase: Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade.

Nem sei dizer se a frase é cruel, pela elasticidade dos conceitos verdade / mentira. Se mentira é o que não é real, acabamos com a esperança, fé, sonhos, e todas as meias-verdades que a semântica colore de tantos modos diferentes.

Então Gandhi ou outro poderia dizer a mesma mensagem como:
a verdade se constrói com perseverança.

Então tudo é uma questão de tempo. Sendo a vida filme e não foto, tudo é questão de tempo. Como a contabilidade de uma empresa, os quilos na balança, e qualquer jogo. Enquanto não há fim, todos resultados são possíveis: doentes contrariam diagnósticos, teorias científicas são revogadas, a história é reescrita, e sempre haverá um modelo mais eficiente e revolucionário de cosmético que sempre existiu. Enfadonhamente igual pro Drummond, lindamente atemporal pro Shakespeare.

Essa é a essência do(a) Orlando, de Virgínia Woolf, a aquariana que morreu-se no rio Ouse. Orlando é uma longa carta de amor, antídoto para a dor de amor que ela não sentiu pelo marido. Ele recebeu uma carta suicida, que nesse caso não deixou de ser uma carta de amor. Virginia colocou uma pedra dura em seu casaco e entrou em água mole. Ela sabia nadar, escolheu não nadar. A carta:

Dearest,
I feel certain I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will, I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.

I don't think two people could have been happier than we have been.

V.

8.8.08

acht.ung

15.7.08

pá de cal

Ao mesmo tempo que me afeiçoei a história da menina, me incomodou que naturalmente nascesse a responsabilidade pelo seu futuro. Que não será, ela se deu bem no que se propôs e terminou a história destemidamente.

Ter medo como última palavra realmente fechou o assunto. Eu não saberia falar dos medos dela, como se davam e eram superados ou não. Teria de sair da fantasia e buscar reforços reais como as palavras do Roosevelt only thing we have to fear, it´s fear itself. Teria de florear com o amor e medo, de Casimiro de Abreu. E por fim autoconhecimentaria com pesquisa dos outros.

Cultura do medo. Cultura nos dois sentidos, naquele da música do Arnaldo (Antunes, que inspirou recente propaganda do Boticário, obviamente escrita por um publiciotário, e não por um poeta) e no outro sentido mais pop.

Mas a matéria da Folha sintetiza muita coisa importante que nunca consigo conversar, no meu complexo de fool on the hill. A respeito de dignidade, banalização, vale-tudo.

7.7.08

a thousand flowers

Acordou aos poucos, com olhos recém nascidos curiosos e prudentes em reconhecer onde estava. O mundo era o mesmo de sempre mas como ela havia mudado em sua essência, a recíproca era válida. Ela era ela sem a fome que lhe matava, sem a condição que por tanto tempo restringiu não só sua existência mas também seus sonhos e seu futuro. Não era mais faminta e perdida. O mesmo chão que anteontem era frio e duro, hoje era relva macia a acariciar sua pele. Estava nutrida de vida.

Reparou que seu vestido – certamente o que mais tentou, acima de si mesma, preservar durante a fuga – seu vestido estampava a alegria sobre a tristeza, aquarela alegre e confusa espalhada em manchas que quando secas perderam o tom e se tornaram levemente azuis. Ela descobriu em si algo insuspeito e revelador. Como a pele rosa e viçosa que se escondia embaixo dos lábios arroxeados e secos: naquela noite teceu, com ritmo e entrega, uma nova vida para si.

Seu pensamento parecia o vôo mudo e eloqüente das borboletas na luz recortada entre as folhagens. Uma consciência objetiva mas solta, uma força invisível onipresente que naquele momento ela naturalmente sabia como fazer o melhor uso. Levantou-se, mexeu nos cabelos, e divertiu-se reconhecendo a sua volta os rastros de sua jornada que culminaram em tão feliz descoberta.

Com passos leves e precisos, firmou o olhar no horizonte (sim, havia um horizonte) e seguiu rumo ao sol. O grande perigo não era mais o desconhecido, era justamente se esquivar dele. Não teve medo.

1.7.08

serpentine

... e as pétalas eram tão perfumadas e suculentas que ela comeu tantas quantas pode, sem se preocupar com as manchas roxas que se acumulavam por todo o vestido branco. O que não sabia é que durante todo seu banquete era observada por uma ou duas criaturinhas verdes curiosas, que escondidas por trás das folhagens tremiam assustadas tamanha era a fúria com que a menina engolia as flores.

Haviam lhe contado que por ali talvez houvessem daquelas flores. O que ela não esperava era ter errado o caminho e com isso andado em círculos por horas a fio. E muito menos que ao invés de algumas flores, fosse se deparar com um extenso jardim púrpura: desde os botões lilás, até touceiras enormes em um exuberante tom de roxo. Guiada pelo inconfundível aroma doce e ácido, e escoltada pelos últimos raios de sol da tarde, nada além de cair de joelhos entre as flores poderia ser feito.

E no conforto de sua lógica insensata, fechou olhos e ouvidos para qualquer sentido que pudesse interromper sua saciedade. Talvez fosse a grande ceia que daria forças para reencontrar seu caminho. Talvez fosse a última refeição, o último ato inocente e instintivo que justamente por isso merecia ser feito com toda a força que ainda lhe restasse.

E o fez, até o fim.

24.6.08

candy

Come chocolates, pequena,
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo se não chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudera eu comer chocolates com a mesma vontade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

AC (FP)

23.6.08

the unbearable lightness of gardening

Um dos meus filmes preferidos é O Jardim Encantado, no original Secret Garden, baseado no livro da inglesa Frances Hodgson Burnett. Fala sobre a magia invisível das coisas ao nosso redor, aquela que muitas vezes não nos permitimos ver e curiosamente é a mais poderosa em termos de cura e libertação.

O palco onde a mágica acontece é um jardim que nunca se soube estar ali, ou era seguramente mantido no esquecimento. Esteve no exato mesmo local por anos e anos com suas características preservadas embaixo dos musgos e ervas que não significam deterioração, mas sim o pedido, o convite, a devolver ao jardim seu encanto original.

Meu jardim lá em casa se organiza em vasos, as plantas se adaptaram a não ter uma terra legítima para aprofundar suas raízes. É bonito e pacificador cuidar delas, procurar o equilíbrio entre deixar a natureza seguir seu curso, ou podar constantemente folhas secas e hastes mortas. Botar os brotos onde possam se desenvolver melhor, proteger ou expor ao sol de acordo com a época do ano. Agora por exemplo, à sombra do solstício de inverno (do latim hibernu) e principalmente depois que as plantas tiveram seus lugares trocados, preciso aproveitar o que há de bom na nova ordem e restaurar o que era de fato bom para elas. Uns cuidados, outros capricho, todos carinho.

A Verdade é que o palco onde se opera a magia é dentro do coração de quem o descobre: lugar seguro para se esconder grandes segredos.

Um bom tempo depois de ter visto o filme (que me lembra um dos sonhos mais antigos qie tenho na memória) encontrei uma edição bonita do livro, na fazenda, onde justa e finalmente vou lê-lo. Era da minha irmã quando pequena. O encontrei dez anos atrás e ainda não li. É assim que vou encerrar Junho. Curioso que a história comece com uma menina saindo da Índia...

Wings are wide.

12.6.08

0x0

A Alice no espelho talvez tenha outro nome. Porque o que há no espelho mal existe, é mero reflexo, menos real que uma foto. A terceira dimensão que nunca veremos. Será esse o grande mistério? Nunca ouviremos nossa voz como ela realmente é, as gravações não são fiéis como os ouvidos. Nunca veremos nosso rosto em 3d, somos seres sem cabeça, e o que o espelho oferece é 2d e com os lados trocados. Talvez essa gota de mistério, esse detalhe pequeno mas importante, simbolize que nunca nos conheceremos completamente. Não precisamos disso para viver.

11.6.08

Alice através do espelho

Hoje acordei em sonho. Como se o mundo todo, inclusive meu corpo adormecido, estivesse congelado nos segundos que antecedem o dia. A orla vazia e tensa aguardando a onda que em estrondo e espuma acaricia a areia espalhando-a de modo que nunca mais se reunirá. E isso tudo é necessário, triste e feliz.

Acordei sem pensar, acordei só sentidos e eles me empurraram pra fora de casa. Robô, autômato na metrópole, mudo, assistindo a vida como cinema. Nada technicolor entre as nuvens, fumaças, concreto, asfalto e pessoas vestidas de cinza.

Pensei na necessidade extrema de representação que temos, o que dizem nos tornar animais diferentes de todos outros. Reproduzimos experiências de modo a criar valores, crenças, rituais. Difícil dividir o que nos protege e o que nos aprisiona, o ponto de equilíbrio da razão sobre a emoção: civilizar, aculturar, desumanizar, condicionar.

Lembrei dos filhotes que aprendem a se defender brincando de lutar.

E parti pras artes marciais, nossa simulação segura de violência. A competição onde a vitória pode mas não deve ser o objetivo final. O ímpeto animal estetizado, elevado ao status de esporte protegido por amplas filosofias. Esgrima era uma versão menos punk do duelo de pistolas, mas ambos eram jogos entre cavalheiros, com regras e juízes. E muito antes os jogos medievais eram mini-guerras, e antes deles os gladiadores e seu fabuloso espetáculo. E não tem nada a ver com a sociedade ocidental, porque os astecas tinham aquele futebol maluco onde os perdedores pagavam com a vida. Para eles era uma solução política para problemas onde os nobres competiam. Ao invés de fazer uma guerra, faz-se um jogo, onde competem os que tem interesse direto na disputa.

Curiosa ironia que o Amor seja filho de Marte e Vênus — Eros, Ares e Afrodite — e que em muitos momentos a corte se pareça com um ataque. Competição, o desfile de armas, lutas coreografadas e requintadas simulações que desembocam na única vitória realmente válida: prazer.

C'est à l'amour comme à la guerre.

Quanto ao espelho, fica pra outra vez. Prometo, juro, garanto.

9.6.08

pingos nos ï

Começando com a maravilhosa Anaïs Nin:
Each friend represents a world in us, a world not possibly born until they arrive, and it is only by this meeting that a new world is born.

Alguns mundos com satélites, outros em evidente expansão, e sempre aqueles distantes sob os quais paira a dúvida de haver ou não condições de vida. Inteligente, por favor. (E inteligente é minha próxima palavra a morrer, assim como arte morreu.)

Daí depois da semana bipolar, de tédio mortal no trabalho e vida abundante fora dele, finalmente chegamos a Índia. A expedição não foi completa, o que fez sentido depois de ter vivido a viagem. Com todos ali reunidos, o que havia era a atenção autocentrada. Normalmente a natureza e o silêncio são as principais estrelas, o que permite novas conversas, novas descobertas.

Mas fomos ao culto do excesso: comida, bebida, e conversas com no mínimo o dobro de palavras que poderiam conter. Então o fim de semana foi um longo dia e uma longa noite. Mais o convívio que a vivência, o mesmo tipo de conforto que filhotes de cachorro parecem ter amontoados uns aos outros.

Foi divertido, inebriante, glutão, preguiçoso. O ritmo e os temas foram trazidos pelas pessoas, e como de costume assisti, observei.

Baaaah... é um dia que não consigo por roupa de festa nas palavras! Quero dizer que foi ótimo mas pessoas levaram com elas a ansiedade e o pragmatismo de o que esperar do final de semana. E às vezes me parece mesmo que essa preocupação com conforto e explicação acaba restringindo o que se possa apresentar de confortável... e as deliciosas conclusões que possam surgir naturais e fantásticas.

Música (de mentira) do dia: INXS - Never tear us apart

30.5.08

Vida em Veneza

Ontem estive em Kabul. Confuso e barulhento, luzes amarelas, e pessoas idem — sendo que as qualidades e defeitos têm a mesma origem e se diferem apenas na reação que causam nas pessoas. Então se por muito tempo não entendi os que não gostavam de chocolates, hoje como muito mais pimenta. Não que eu não gostasse delas, apenas não me deixava gostar. O cultivo de um prazer sem preterir outro forma uma bela coleção hedonista onde o valor, a importância, não faz sentido. É importante ser. Saber é apenas interessante, não é vital. Saber, sabor.

Fiquei o tempo que precisei ficar em Kabul e fui para um porto seguro, que algum tempo depois me dei conta que era Veneza. Como é linda Veneza. Absorvi aquela riqueza de detalhes, aquele sonho de realidade, cores e texturas que nunca havia visto. Tudo muito vivo e brilhante: a água turquesa e densa, os prédios rebuscados em diferentes tons de terra. Fomos muito felizes em Veneza, aproveitamos o que de bom nos podia ser oferecido e descobrimos caminhos novos, sem que isso não nos custasse nada além de bons sonhos.

De volta a São Paulo, me abrigo do frio e fujo da chuva. Os conheço bem e respeito sua soberania, sei como me proteger. Me anima também que de noite nós todos vamos finalmente para Versailles.

E semana que vem uma viagem mais longa, na verdade uma expedição. Para nossa querida Índia, paraíso na Terra.

29.5.08

O post mensal

Furei. Um mês de recesso entre os posts secretos. O divertido é que achei que tinha mandado message in a bottle mas essas coisas de logs e tags e confirmações e tal, e nada aconteceu. Assim, tinha certeza de ter deixado o link no lilás mas a real é que deixei em branco.

Mas justiça será feita. Palavra que me lembra do álbum Cross do Justice, cujo hit D.A.N.C.E. fez parte da excelente trilha sonora de terça-feira. Lembra também que uma cross tem 4 cantos, e de toda a mística ao redor do quatro.

Quatre
Pontos cardeais, estações do ano, fases da lua, os quatro elementos essenciais da natureza. A pirâmede não nega sua inspiração de triângulo, mas precisa de quatro deles, apoiados sob um quadrado para encontrar seu equilíbrio perene. Adoraria saber de matemática para dar um tom pitagórico à coisa, mas não é o caso, não acredito em fórmulas. Sou mais das letras, vejo uma graça infinita nelas. Por exemplo: o trevo da sorte tem quatro folhas. E no baralho, trevo representa paus enquanto o losango vermelho de ouros mantém alinhados seus quatro elegantes lados.

And the cares that hung around me thro' the week
Seem to vanish like a gambler's lucky streak.

25.3.08

bem vinda Ju

a vantagem de ter um blog ex-secreto é poder deixar recado.

BEM VINDA JU!
leitora número 1, título de honra.


beijo

. . .

Aproveitando essa temporada freudiana de buscar lá atrás as pedras que ainda hoje estão no caminho – e não são calçamento – lá vou eu e minha cultura de almanaque empilhar palavras de um jeito que me façam sentido. Tempos introspectivos, vertiginosos, irritantemente pleonásticos.

De um lado a segurança de já ter visto o filme, do outro o tédio natural das repetições, e no meio minha ânsia de novidade. Então é fato que exista uma similaridade grotesca em tudo, pois somos humanos e limitados. E isso é bom, disso dependem os clássicos da literatura, os mitos que substituímos pela tv, e os autores de auto-ajuda. Enfadonhamente iguais. A ruminância que estimula a paz bovina necessária ao bom brasileiro.

Meu pai sempre foi um demagogo. Viciado em atenção e retórica, auto-coroado rei pelo novo riquismo duramente galgado nas tetas gordas do milagre econômico. Esse ator canastrão, experiente e cheio de bordões, tinha vários jeitos de dizer não sem dizê-lo. Não por pedagogia, por demagogia. Para sua comodidade e segurança. Mais Pinochet que Piaget, dissimulado até que a morte o separe do personagem dele mesmo.

Incrível como depois de falar dele todo assunto e disposição morre em mim. Ia falar tanta coisa.... amargor

28.2.08

A dura poesia concreta

Eu sou de longos ensaios, por conta de um perfeccionismo que não assumo para mim mesmo por pudor inconsciente em parecer arrogante. Porque por perfeccionista entendemos o que faz perfeito, e esquecemos que perfeição é inatingível... logo... perfeccionista é o que tenta atingir o alvo bem no meio. Quantos conseguem?

Enfim... ontem quando vinha pro curso na Paulista, (cujo valor maior é me tirar por uma semana do trabalho) reparei mais uma vez como são poucas as bicicletas, muitos e infelizes os carros, infinitos e oprimidos pedestres. Depois que roubaram a última bike quase não tinha usado essa novinha em folha, meu auto-presente de natal. Incrível como arrumamos desculpa para manter um conforto. Então era o pneu vazio, sair encima da hora, esquecer alguma coisa indispensável... mil desculpas. E já que nada é perfeito, tudo é criticável, tudo pode ser impossível... rs... Até que vejo uma modelo passando linda e rápida com sua magrela, e senti aquele se ela pode, eu posso. Até cortei o cabelo.

Eu pude hoje. Pude chegar em metade do tempo, sem prestar atenção no calçamento absurdo, protegido de pedestres-formigas, conversas de taxista, e principalmente de todos os tipos de miseráveis. Sou menos miserável, oprimido, formiga.

O melhor: a volta é descida =)
Acho até que vou almoçar em casa, só pra fazer tudo outra vez.

E já que estou mais saidinho, o blog também será. Nem lembro mais porque ele era tão secreto.

29.1.08

kaspar hauser e yo la tengo

Lá pelo meio do ginásio o professor de história contou o fundo de verdade em Mogli e Tarzan. Crianças perdidas na mata que adotadas por bichos, viravam bichos. Algo perto do grande hit do Augusto dos Anjos, que era quase uma oração da minha adolescência cercada de sandmans, nietzsches, e uma angústia eterna que só terminaria quando os hormônios todos quase terminaram comigo.

O homem que nesta terra miserável vive, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.

Vírgulas por minha conta. Depois assisti Kaspar Hauser, que é verídico, e li sobre vários humanos extraviados na selva, ou seqüestrados por terroristas, exilados por governos...

Melhor não chegar onde quero. Melhor perder o fio da meada e brincar com o novelo como filhote de bicho. A pergunta é: o quanto Midas somos? O quanto a nossa capacidade de adaptação vai contra o instinto de preservação?

Menino lobo, homo homini lupus. E a sociedade sem a qual não vivemos e com a qual adoecemos, principalmente nas maravilhosas e insubstituíveis metrópoles.

Ah... e Stockholm Syndrome. Música que proibí faz tempo, de tanto gostar.

7.1.08

o post de cada 6 meses!

Ia começar recapitulando, comentando, requentando. Mas já tá bom voltar a escrever, o máximo de ordem que consegui por foi deletar os outros 2 blogs e insistir nesse já que essa semana promete ser de tédio mortal no trabalho. The office.

E porque não consegui simplesmente jogar fora, embora devesse, salvei o texto abaixo do que seria um livro se eu me visse como autor e então soubesse escrever. A idéia até era boa.

My pleasure
Não sei se foi um erro permear minha vida com prazeres intensos. Não existe frigidez ou tédio, eu viveria tudo de novo. Qualquer lembrança de bons momentos já recorda meu corpo que dentro dele corre sangue quente a esquentar a carne toda.

Eu esperava um efeito acumulativo para que minha fome não fosse eterna. Preciso sempre comer. Só paro quando me sacio, e essa satisfação vem depois de todos desejos serem ouvidos, todos excessos cometidos. Quando a vida não é assim fica chata.

Não é vicio. É muito estúpido me reduzir a um vício. Não sou nocivo, busco a harmonia respeitando meus desejos. Quanto menos ouço meu corpo (e é óbvio que o cérebro é parte do corpo, faça-me o favor) mais vou desbotando, definhando, deprimindo.

Preciso de sexo em quantidade e qualidade. Sou movido a amores, orgasmos, pernas entrelaçadas, mordidas, pele, mucosas, suor, gemidos.

E tenho fome.

xxx

Não imaginei que uma coisinha tão dócil e pequena me fizesse mal. Claro que poderia fazer, mas eu saberia me proteger sem muito esforço. Eu era despreocupadamente feliz, aceitava convites, sorria, fazia brincadeiras. Era um alvo fácil para quem visse na minha alegria a fragilidade sem fim de um coração aberto. Fui vítima de uma inocência que de tão infantil é inaceitável.

Minha nudez era completa: roupas, discursos, etiquetas. Para minha coisinha dócil e pequena — que no auge da loucura personifiquei como Amor — eu era um livro aberto.

Eu achava que era uma troca mas só depois de não receber nada entendi que tinha me vendido barato demais. Ganhei deliciosas memórias que figuram entre as poucas que pagaria para perdê-las. Não é possível. É a minha vida, ela tem de me descer garganta abaixo todos os dias.

12.7.07

e mais outro aniversário

... um ano depois, acho esse blog perdido. Fiz 30 outro dia, também com uma festinha surpresa alla flash mob: email no dia, quem leu veio. Umas poucas e boas (ótimas na verdade) pessoas lembraram mesmo sem ajuda do orkut, o que me deixou genuinamente feliz e um pouco preocupado com essa felicidade solta.

Sobre as metas de 30, acho que paguei minhas expectativas em prestações. Lembro de uma amiga que ao fazer 28, (ou 30, alguma data simbólica) se autoflagelava porque a vida atual era "bem diferente dos planos que eu fiz com X anos". Tipo 13 ou 16, tanto faz. Depois dos 25 tanto faz: pra baixo de 20 tudo é cutchi cutchi, até demais. Então não posso, e nem quero que meu eu de 30 preste satisfação ao meu eu adolescente, ou o que sobrou dele. Não tenho outra vida, gosto desta, e só a intenção de melhorar já é o caminho.

4.7.06

outro aniversário!

Domingo retrasado fiz 29. (Sem direito ao blablabla de saturno porque meu ascendente é igual ao meu signo solar, sigo canceriano). Desavisei o orkut meeeeses atrás pra evitar elos perdidos mandando mensagens prontas e me obrigando a respondê-las. E viajei no dia.

Não que eu não goste de festa, ou de aniversário, ou dos amigos, muito pelo contrário. Só que dessa vez era quase um incômodo inesperado e novo. Não sabia o que fazer e não queria me dar o trabalho, ultimamente não quero trabalho nenhum além do tradicional. Então se a culpa não é do retorno saturno, e eu sempre gostei de aniversário, a culpa é do trabalho. Um verdadeiro matadouro.

Mas sexta passada a Lu inventou uma festa surpresa =D Chamou os amigos de surpresa no dia, inventou as coisas todas, e eu caí direitinho. E fui feliz. A festa anulou o trabalho-matadouro pelo fds inteiro, nem liguei pro Brasil apanhando na Copa. Nem senti tanto pelas pessoas que não puderam vir, uma vez que não as convidei foi só lidar com a ausência, e não com a frustração do "convidei e não veio".

12.6.06

weapon of choice

Sábado teve show do CSS, no ex-Superclub e ex mil outros lugares que atualmente atende pelo nome bizarro de Casa Belfiore. Gosto de lá, é amplo e meio fora de mão, então algum conforto é garantido, acima da média dos lugares. Acho que a última vez que fui lá tinha sido em 2004, numa festa de breakcore, mashup, coisa complicada...

Revi pessoas queridas que nunca mais tinha visto depois de sumir em meados de... 2004! Foi um ano muito difícil mesmo, uma instrospecção sofrida e absurda quase incomparável. Depois me internei no trabalho mais careta da minha vida e aí que sumi mesmo, em janeiro de 2005.

Mas encontrei uma pessoa com quem cultivo uma relação incômoda, por hobby. Nos conhecemos numa festa, em... er.... 2001? Pode ser. E aquela animação, descontração, instantâneo e inteeeeeeeeeeenso. E acabei de lembrar que tem fotos terríveis e não tenho nenhuma delas, e acho ótimo. Sei que depois da festa passamos a nos encontrar nos lugares, ou a nos reconhecer neles, porque são muito poucos mesmo. E a coisa não atou nem desatou, era descartável mesmo. De cima desse muro de indecisão incômoda, a pessoa faz questão de cumprimentar e fazer uma cara simpática como se eu tivesse sido eleito para um cargo vitalício. É visível o nervosismo e eu confesso que adoro. Não tenho absolutamente nenhuma expectativa, mas mantenho minha condenação irrevogável: vai ter que me dar o mesmo oi estéril e improdutivo pra sempre. A falsa espontaneidade é bem pior que a legítima timidez.

reality bites

Não consegui retomar esse hobby de escrever no blog. A epidemia de reality shows me contagia, embora não consiguisse assistir assiduamente nem o Idol. Aliás adorei quando acabou para não me culpar mais de ter perdido algum episódio importantíssimo como todos são.

Então não anotei meus episódios de casamento, mudança e férias, talvez porque já os estivesse vivendo de tantas maneiras que escrever aqui seria a gota faltando pra tempestade. Tudo deu certo, seria um belo azar depois de tanta preparação. E na hora H me surpreendi, cansei, amei, mesmo após a extensa e extenuante preparação de meses.

E mais de duas pessoas (já dá pra dizer várias) perguntam por que parei de escrever, e que deveria voltar. Vou culpar o orkut, que quando chegou já não encontrava tempo livre entre blog e flog. Myspace, Wayn, e outros nem cheguei a abrir mesmo com as garantias de que é muito legal, muito melhor que aquele outro que no fundo é igualzinho a todos e sempre vai ser superado por mil outros.

Mas eu já vinha escrevendo aqui e nos outros 2 blogs secretos, e sendo que esse é o que mais escrevi, imagina o vazio que são os outros. Agora minha redenção do trabalho é escrever aqui. Tipo...... vai chover palavra.

30.3.06

Regressiva 3 - O Casamento

Um brasileiro está em órbita. A Luiza vai fazer turnê nos EUA e Canadá e... eu vou casar.

Semana que vem tô casando. Até agora eu me sentia revendo aqueles filmes quase bobos mas divertidos sobre famílias e festas e coisa e tal. Hoje tive um abalo sísmico na cabeça e no estômago, haja respiração pra segurar essa ansiedad. É uma experiência de entrega, é preciso relaxar e.... esperar 1 semana pro terremoto passar e chegar na Bahia. Lá passo a preencher fichas de hotel com um (x) no "casado". Estado civil? Casado.

Nunca estive tão ansioso. Uma semaninha só. Sei que não é normal ainda não ter a roupa uma semana antes, mas fazer o quê?... Pelo menos a tattoo tá cicatrizada e não vai derreter no mar da Bahia. Os 3 tubos de bepantol foram bem gastos.

29.3.06

Regressiva 2 - Mudança

A vida em caixas. E no sábado, fool's day, é a mudança. Fode um pouco ficar sem geladeira e fogão por uma semana... Mas a vaporeta e o microondas salvam vidas. Principalmente a vaporeta.

Chega uma hora também que o foda-se é tão grande que a inércia da vida é confortável. Pensar, digerir, agir, reagir a tudo o tempo todo exige uma integridade que não tenho hoje. Então, como se fosse tempestade (e um bom pedaço é) espero que as urgências passem. Algumas o tempo leva a cabo e depois vê-se o que faz com os resultados. Na verdade a trégua que será a lua-de-mel/férias vai esfriar tudo... Vai ser muito bom.

Hoje aniversário da querida Luiza... 26. O que faz me sentir com 46 acho, não pelo tempo em si mas porque hoje me sinto uma ferrugem. 64 acho. When I'm 64. Às vezes a velhice me parece um exílio muito gostoso. Espero poder envelhecer bem.

Regressiva 1 - E-difícil Copan

Não é cuspir no prato que comi nos últimos 30 meses maaaaaaaaaas... agora que já achei o outro apê e tenho contato com outro prédio, com suas regras e funcionários, me veio a dimensão do quanto o Copan é difícil. Talvez eu não pudesse perceber antes, mas agora que já estou com um pé fora, vem toda aquela indignação.

O prédio é lindo, a vista (de quem mora pra Ipiranga) é impressionante, e os 220m² vão deixar saudades.

A Lei
Mas isso de ser uma cidade de 3.500 ou 5.000 pessoas governada pelo prefeito que era do SNI (coisa que até o Jô desconversou na entrevista), complica muita coisa. Não sei se poderia ser de outro jeito, porque esse prefeito ao longo dos 10 anos de reeleições recuperou o Copan, que estava entregue ao sexo, drogas e ao crentes que compraram o falecido Cine Copan. Diz que o prédio era um caos. Agora temos ordem mas a burrocracia pesa. É como morar num prédio comercial: horas, multas, regras, tudo muito pouco flexível e as vezes inexplicável. E os funcionários fazem o que chefe manda, qual outra alternativa?

Para nossa segurança, instalaram câmeras por todos os lados. E haverão outras. Daí alguém que trabalha no prédio comenta que há policiais à paisana por ali.... Bacana... Um alívio.

O Som
Mas o ranço da ditadura pode contra muitas coisas, algumas injustas, mas não pode contra o Love Story. Depois que o dono, que é diplomata, comprou 2 apartamentos grandes (ou seja, muitos metros quadrados de voto nas assembléias) o prédio o deixou em paz. Não é o som da casa em si, mas dos freqüentadores ou dos visitantes da porta. Porque se chegasse e entrasse tava tudo lindo. O pobrema é a testosterona escorrendo pelos escapamentos, subwoofers, buzinas de ar...

A prostituição é uma realidade, espero que cada vez melhor pras profissionais. Mas a ignorância dos clientes é um mal. Na verdade sou contra a putaria na rua. Não sei o tipo de transe que leva fulano a sair zuando de noite como se a cidade fosse a casa dele. O Serra podia arrecadar né? Fazendo valer a lei que não pegou sobre decibéis de sons e motores. Podia né, já que ele gosta tanto de multas.

Aceita ovus?

Então, desde a mudança pro digníssimo e-difícil (que em todos seus impressos ostenta "inscrito no guinness book") pedimos esfihas e afins no Boulevard Ipiranga. É um desses Habibs de segunda, mas a qualidade é a mesma do Habibs, leia-se aceitável.

Mas o atendimento é cruel. A moça do telefone pira tanto que no último pedido, no lugar do homus (alô... isso homus... a pasta de grão de bico...) veio.... Um ovus! Um ovus frito, podre, da cor de um tênis velho.

Chocou tanto que resolvi voltar a escrever.