blablabla

"um dia a massa ainda comerá do meu fino biscoito" - f. pessoa

24.6.08

candy

Come chocolates, pequena,
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo se não chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudera eu comer chocolates com a mesma vontade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

AC (FP)

23.6.08

the unbearable lightness of gardening

Um dos meus filmes preferidos é O Jardim Encantado, no original Secret Garden, baseado no livro da inglesa Frances Hodgson Burnett. Fala sobre a magia invisível das coisas ao nosso redor, aquela que muitas vezes não nos permitimos ver e curiosamente é a mais poderosa em termos de cura e libertação.

O palco onde a mágica acontece é um jardim que nunca se soube estar ali, ou era seguramente mantido no esquecimento. Esteve no exato mesmo local por anos e anos com suas características preservadas embaixo dos musgos e ervas que não significam deterioração, mas sim o pedido, o convite, a devolver ao jardim seu encanto original.

Meu jardim lá em casa se organiza em vasos, as plantas se adaptaram a não ter uma terra legítima para aprofundar suas raízes. É bonito e pacificador cuidar delas, procurar o equilíbrio entre deixar a natureza seguir seu curso, ou podar constantemente folhas secas e hastes mortas. Botar os brotos onde possam se desenvolver melhor, proteger ou expor ao sol de acordo com a época do ano. Agora por exemplo, à sombra do solstício de inverno (do latim hibernu) e principalmente depois que as plantas tiveram seus lugares trocados, preciso aproveitar o que há de bom na nova ordem e restaurar o que era de fato bom para elas. Uns cuidados, outros capricho, todos carinho.

A Verdade é que o palco onde se opera a magia é dentro do coração de quem o descobre: lugar seguro para se esconder grandes segredos.

Um bom tempo depois de ter visto o filme (que me lembra um dos sonhos mais antigos qie tenho na memória) encontrei uma edição bonita do livro, na fazenda, onde justa e finalmente vou lê-lo. Era da minha irmã quando pequena. O encontrei dez anos atrás e ainda não li. É assim que vou encerrar Junho. Curioso que a história comece com uma menina saindo da Índia...

Wings are wide.

12.6.08

0x0

A Alice no espelho talvez tenha outro nome. Porque o que há no espelho mal existe, é mero reflexo, menos real que uma foto. A terceira dimensão que nunca veremos. Será esse o grande mistério? Nunca ouviremos nossa voz como ela realmente é, as gravações não são fiéis como os ouvidos. Nunca veremos nosso rosto em 3d, somos seres sem cabeça, e o que o espelho oferece é 2d e com os lados trocados. Talvez essa gota de mistério, esse detalhe pequeno mas importante, simbolize que nunca nos conheceremos completamente. Não precisamos disso para viver.

11.6.08

Alice através do espelho

Hoje acordei em sonho. Como se o mundo todo, inclusive meu corpo adormecido, estivesse congelado nos segundos que antecedem o dia. A orla vazia e tensa aguardando a onda que em estrondo e espuma acaricia a areia espalhando-a de modo que nunca mais se reunirá. E isso tudo é necessário, triste e feliz.

Acordei sem pensar, acordei só sentidos e eles me empurraram pra fora de casa. Robô, autômato na metrópole, mudo, assistindo a vida como cinema. Nada technicolor entre as nuvens, fumaças, concreto, asfalto e pessoas vestidas de cinza.

Pensei na necessidade extrema de representação que temos, o que dizem nos tornar animais diferentes de todos outros. Reproduzimos experiências de modo a criar valores, crenças, rituais. Difícil dividir o que nos protege e o que nos aprisiona, o ponto de equilíbrio da razão sobre a emoção: civilizar, aculturar, desumanizar, condicionar.

Lembrei dos filhotes que aprendem a se defender brincando de lutar.

E parti pras artes marciais, nossa simulação segura de violência. A competição onde a vitória pode mas não deve ser o objetivo final. O ímpeto animal estetizado, elevado ao status de esporte protegido por amplas filosofias. Esgrima era uma versão menos punk do duelo de pistolas, mas ambos eram jogos entre cavalheiros, com regras e juízes. E muito antes os jogos medievais eram mini-guerras, e antes deles os gladiadores e seu fabuloso espetáculo. E não tem nada a ver com a sociedade ocidental, porque os astecas tinham aquele futebol maluco onde os perdedores pagavam com a vida. Para eles era uma solução política para problemas onde os nobres competiam. Ao invés de fazer uma guerra, faz-se um jogo, onde competem os que tem interesse direto na disputa.

Curiosa ironia que o Amor seja filho de Marte e Vênus — Eros, Ares e Afrodite — e que em muitos momentos a corte se pareça com um ataque. Competição, o desfile de armas, lutas coreografadas e requintadas simulações que desembocam na única vitória realmente válida: prazer.

C'est à l'amour comme à la guerre.

Quanto ao espelho, fica pra outra vez. Prometo, juro, garanto.

9.6.08

pingos nos ï

Começando com a maravilhosa Anaïs Nin:
Each friend represents a world in us, a world not possibly born until they arrive, and it is only by this meeting that a new world is born.

Alguns mundos com satélites, outros em evidente expansão, e sempre aqueles distantes sob os quais paira a dúvida de haver ou não condições de vida. Inteligente, por favor. (E inteligente é minha próxima palavra a morrer, assim como arte morreu.)

Daí depois da semana bipolar, de tédio mortal no trabalho e vida abundante fora dele, finalmente chegamos a Índia. A expedição não foi completa, o que fez sentido depois de ter vivido a viagem. Com todos ali reunidos, o que havia era a atenção autocentrada. Normalmente a natureza e o silêncio são as principais estrelas, o que permite novas conversas, novas descobertas.

Mas fomos ao culto do excesso: comida, bebida, e conversas com no mínimo o dobro de palavras que poderiam conter. Então o fim de semana foi um longo dia e uma longa noite. Mais o convívio que a vivência, o mesmo tipo de conforto que filhotes de cachorro parecem ter amontoados uns aos outros.

Foi divertido, inebriante, glutão, preguiçoso. O ritmo e os temas foram trazidos pelas pessoas, e como de costume assisti, observei.

Baaaah... é um dia que não consigo por roupa de festa nas palavras! Quero dizer que foi ótimo mas pessoas levaram com elas a ansiedade e o pragmatismo de o que esperar do final de semana. E às vezes me parece mesmo que essa preocupação com conforto e explicação acaba restringindo o que se possa apresentar de confortável... e as deliciosas conclusões que possam surgir naturais e fantásticas.

Música (de mentira) do dia: INXS - Never tear us apart