Hoje acordei em sonho. Como se o mundo todo, inclusive meu corpo adormecido, estivesse congelado nos segundos que antecedem o dia. A orla vazia e tensa aguardando a onda que em estrondo e espuma acaricia a areia espalhando-a de modo que nunca mais se reunirá. E isso tudo é necessário, triste e feliz.
Acordei sem pensar, acordei só sentidos e eles me empurraram pra fora de casa. Robô, autômato na metrópole, mudo, assistindo a vida como cinema. Nada technicolor entre as nuvens, fumaças, concreto, asfalto e pessoas vestidas de cinza.
Pensei na necessidade extrema de representação que temos, o que dizem nos tornar animais diferentes de todos outros. Reproduzimos experiências de modo a criar valores, crenças, rituais. Difícil dividir o que nos protege e o que nos aprisiona, o ponto de equilíbrio da razão sobre a emoção: civilizar, aculturar, desumanizar, condicionar.
Lembrei dos filhotes que aprendem a se defender brincando de lutar.
E
parti pras artes marciais, nossa simulação segura de violência. A competição onde a vitória pode mas não deve ser o objetivo final. O ímpeto animal estetizado, elevado ao status de esporte protegido por amplas filosofias.
Esgrima era uma versão menos
punk do duelo de pistolas, mas ambos eram jogos entre cavalheiros, com regras e juízes. E muito antes os jogos medievais eram mini-guerras, e antes deles os
gladiadores e seu fabuloso espetáculo. E não tem nada a ver com a sociedade ocidental, porque os
astecas tinham aquele futebol maluco onde os perdedores pagavam com a vida. Para eles era uma solução política para problemas onde os nobres competiam. Ao invés de fazer uma guerra, faz-se um jogo, onde competem os que tem
interesse direto na disputa.
Curiosa ironia que o Amor seja filho de Marte e Vênus —
Eros, Ares e Afrodite — e que em muitos momentos a corte se pareça com um ataque. Competição, o desfile de armas, lutas coreografadas e requintadas simulações que desembocam na única vitória realmente válida: prazer.
C'est à l'amour comme à la guerre.
Quanto ao espelho, fica pra outra vez. Prometo, juro, garanto.