blablabla

"um dia a massa ainda comerá do meu fino biscoito" - f. pessoa

15.7.08

pá de cal

Ao mesmo tempo que me afeiçoei a história da menina, me incomodou que naturalmente nascesse a responsabilidade pelo seu futuro. Que não será, ela se deu bem no que se propôs e terminou a história destemidamente.

Ter medo como última palavra realmente fechou o assunto. Eu não saberia falar dos medos dela, como se davam e eram superados ou não. Teria de sair da fantasia e buscar reforços reais como as palavras do Roosevelt only thing we have to fear, it´s fear itself. Teria de florear com o amor e medo, de Casimiro de Abreu. E por fim autoconhecimentaria com pesquisa dos outros.

Cultura do medo. Cultura nos dois sentidos, naquele da música do Arnaldo (Antunes, que inspirou recente propaganda do Boticário, obviamente escrita por um publiciotário, e não por um poeta) e no outro sentido mais pop.

Mas a matéria da Folha sintetiza muita coisa importante que nunca consigo conversar, no meu complexo de fool on the hill. A respeito de dignidade, banalização, vale-tudo.

7.7.08

a thousand flowers

Acordou aos poucos, com olhos recém nascidos curiosos e prudentes em reconhecer onde estava. O mundo era o mesmo de sempre mas como ela havia mudado em sua essência, a recíproca era válida. Ela era ela sem a fome que lhe matava, sem a condição que por tanto tempo restringiu não só sua existência mas também seus sonhos e seu futuro. Não era mais faminta e perdida. O mesmo chão que anteontem era frio e duro, hoje era relva macia a acariciar sua pele. Estava nutrida de vida.

Reparou que seu vestido – certamente o que mais tentou, acima de si mesma, preservar durante a fuga – seu vestido estampava a alegria sobre a tristeza, aquarela alegre e confusa espalhada em manchas que quando secas perderam o tom e se tornaram levemente azuis. Ela descobriu em si algo insuspeito e revelador. Como a pele rosa e viçosa que se escondia embaixo dos lábios arroxeados e secos: naquela noite teceu, com ritmo e entrega, uma nova vida para si.

Seu pensamento parecia o vôo mudo e eloqüente das borboletas na luz recortada entre as folhagens. Uma consciência objetiva mas solta, uma força invisível onipresente que naquele momento ela naturalmente sabia como fazer o melhor uso. Levantou-se, mexeu nos cabelos, e divertiu-se reconhecendo a sua volta os rastros de sua jornada que culminaram em tão feliz descoberta.

Com passos leves e precisos, firmou o olhar no horizonte (sim, havia um horizonte) e seguiu rumo ao sol. O grande perigo não era mais o desconhecido, era justamente se esquivar dele. Não teve medo.

1.7.08

serpentine

... e as pétalas eram tão perfumadas e suculentas que ela comeu tantas quantas pode, sem se preocupar com as manchas roxas que se acumulavam por todo o vestido branco. O que não sabia é que durante todo seu banquete era observada por uma ou duas criaturinhas verdes curiosas, que escondidas por trás das folhagens tremiam assustadas tamanha era a fúria com que a menina engolia as flores.

Haviam lhe contado que por ali talvez houvessem daquelas flores. O que ela não esperava era ter errado o caminho e com isso andado em círculos por horas a fio. E muito menos que ao invés de algumas flores, fosse se deparar com um extenso jardim púrpura: desde os botões lilás, até touceiras enormes em um exuberante tom de roxo. Guiada pelo inconfundível aroma doce e ácido, e escoltada pelos últimos raios de sol da tarde, nada além de cair de joelhos entre as flores poderia ser feito.

E no conforto de sua lógica insensata, fechou olhos e ouvidos para qualquer sentido que pudesse interromper sua saciedade. Talvez fosse a grande ceia que daria forças para reencontrar seu caminho. Talvez fosse a última refeição, o último ato inocente e instintivo que justamente por isso merecia ser feito com toda a força que ainda lhe restasse.

E o fez, até o fim.