donjuanismo
Collectio: coletar + falar. Coleção é algo auto-explicável, justifica-se pelo interesse objetivo no assunto, com o respaldo do prazer da posse. Eu tenho, é meu, gosto disso, está sob meus cuidados. Acredito que o grande prazer do colecionador é ouvir o elogio dos outros. Quando o prazer solitário desperta interesse e fascinação ganhando assim um sentido a mais: gosta-se da pessoa também pelos gostos dela. O oposto disso explica as coleções secretas, que só se revelam quando pontos-chave da personalidade do outro foram identificados tornando segura a exposição.
Quem coleciona e gosta de ser reconhecido por isso faz questão de se diferenciar dos que apenas acumulam sem critério. Um organiza, o outro concentra bagunça, ambos acumulam, separados pela mesma tênue linha entre loucos e excêntricos.
Acho curiosas as coleções que parecem um museu, onde as peças podem apenas ser observadas, mesmo pelos seus donos. Como se fosse na verdade uma coleção de memórias, ativadas pela contemplação. Eu estranho mas entendo, pois se precisamos de templo para entrarmos em contato com o divino... natural que para evocar memórias precisemos de relíquias.
Daí eu penso que algumas pessoas se sintam mais seguras com souvenirs que com as viagens em si. Como pseudo-caçadores que nunca fizeram um safari mas penduram chifres e cabeças na parede. E lembram do que gostariam de ter sido, sem nunca ter vivido realmente aquilo.
